Abacate
ou uma afronta à inferência
Sabe porque é que abacate rima com tomate?
Porque são ambos fruta ostracizada.
Não fruta transformada em ostra, mas antes excluída, segregada, rejeitada, qual Kunami fresquinho.
Passo a explicar: o abacate, tal como o tomate, está banido de uma salada de fruta.
Prova por contradição: conhece alguma fruta que não seja excluída de uma salada de fruta e cujo nome acabe em “ate”?
Não conhece, pois não?
Não conhece, porque não há.
Donde,
o abacate é fruta ostracizada.
Q.E.D.
Ou, em bom português, tenho dito.
T.D.T.
Já sei o que está a pensar: chocolate.
Rima com tomate.
Mas não vale. O chocolate é um derivado. O fruto é o cacau. E cacau rima com bacalhau, que é comida, mas não é fruta.
Ora, voltemos à tese fundamental: toda e qualquer fruta ostracizada, tal como o tomate e o abacate, é fruta que vai bem com uma pedrinha de sal. Ou flor de sal, se for chique a valer.
Aliás, desconfio até que os sais de fruto vêm daí.
A minha avó tinha sempre um frasco de sais de fruto Eno lá em casa: curava todos os males com recurso à efervescência — coração, cabeça e estômago.
Agora que penso nisto do sal, ainda há de vir aí alguém dizer-me que o pepino também é fruta.
Ora, pepino não rima com tomate. E, por transitividade, também não rima com abacate.
Logo,
o pepino é verdura e não fruta ostracizada.
Q.E.D.
Antigamente chamavam “pera-abacate” ao abacate, numa tentativa woke de o salvar do ostracismo e de o integrar nas ditas frutas normais. Não resultou.
Note-se que dantes não se comia abacate. Era comida para dar aos porcos e às galinhas, como a alfarroba.
Depois começaram a inventar bolas de Berlim de alfarroba e outros disparates que tais, tudo com o intuito de fazer reportagens para o telejornal durar duas horas e meia.
O que salvou o abacate foi ter aparecido uma geração que decidiu barrá-lo no pão e chamar-lhe brunch. E assim nasceu a tosta de abacate, que a Gen Z passou a comer com fartura. Com fartura no singular, que ainda ninguém se lembrou de pôr abacate nas farturas. E bem. Espero, aliás, que nunca se lembrem, porque não há necessidade de gentrificar esse símbolo da cultura popular e das feiras de agosto que é a fartura.
Mas deve ser uma questão de tempo. Já não se pode andar sossegado sem que venha um Gen Z dar conta das tradições.
Sabem lá eles. Não sabem nada!
A Gen Z anda convencida que, ao contrário da fartura, o abacate é comida saudável. Mas a verdade é que não faz nada bem à saúde.
Sabia que as idas às urgências por causa de armas brancas aumentaram significativamente com o aumento do consumo de tostas de abacate? E isto não é uma correlação espúria. São pessoas que tentaram abrir um abacate ainda verde e tirar-lhe o caroço.
Sei eu, que leio notícias. Até porque o telejornal só fala de assuntos que não interessam a ninguém, como abacates, e dura mais do que um jogo do Mundial com pausa para hidratação, prolongamento e penáltis.
Já dizia Gary Lineker: “O futebol é um jogo simples: 22 jogadores a correr atrás de uma bola durante 90 120 minutos e, no fim, ganha a Alemanha quem a FIFA quiser.”
(Não está a ver a ligação entre abacates e futebol? Lena d’Água, que era vocalista dos “Salada de Frutas”, essa banda icónica dos anos 80, também era filha de José Águas e irmã de Rui Águas, dois grandes jogadores do Glorioso.)

Bom texto, Cláudia! Como seria de esperar, gostei da correlação (causal e não espúria, uma bonita palavra que me faz sempre lembrar em vinho do esporão) entre o número de consumo de tostas com abacates e o número de armas brancas.
Disparate rima com tomate e abacate. Infelizmente, quer a nível alimentar, quer noutras áreas, tendemos a servir disparate à discrição. Com a agravante que, quando o médico manda fazer análises, não aparecem indicadores disso logo abaixo do colesterol :)