Fechado para Balanço
Neste ano de 2025 que agora termina houve coisas boas e coisas menos boas. Alegrias e tristezas. Como o Benfica não ter ganho o campeonato outra vez.
Mas agora a sério: achavam mesmo que eu ia fazer aqui um balanço do meu ano?
É que eu acho isso parvo.
Fazer balanços no dia em que o ano acaba é inconsequente.
Isto porque, se o balanço for mau, já não há grande coisa a fazer para remediar.
Vamos que fazíamos o balanço a 30 de Novembro — ainda tínhamos um mesinho para tentar compor a coisa até 31 de Dezembro. Mas a partir daí mete-se o Natal e pouco dá para fazer. É difícil tratar do que quer que seja em Dezembro, já se sabe.
O ideal seria fazer o balanço ali em Setembro ou Outubro, o mais tardar logo a seguir ao feriado de Todos-os-Santos, no dia dos mortos, que assim ainda podia dar para reanimar a coisa. E todos os santos ajudam, lá está.
Ou melhor ainda: que tal fazer o balanço a meio do ano, vá?
Assim, se o caso estiver mesmo mal parado, ainda há semanas com fartura para recuperar.
E a proposito: como é que se deve medir um ano? Em semanas? Em meses? Em dias?
O melhor talvez sejam semanas. Meses são longos demais, dias curtos demais, sobretudo no Inverno. A partir de Abril ou Maio ainda vá que não vá, já se pode medir em dias, de Novembro a Março é que nem pensar.
Para isto dos balanços, proponho então trimestres, como fazem as empresas cotadas em bolsa. Prestava-se contas em Março, Junho, Setembro e Dezembro. O que, admito, às vezes não serve de muito: contas a brilhar em Março e, em Abril, estão a apresentar insolvência.
Mas há aqui outra questão fundamental: porquê um balanço?
O balanço — digo eu, que sei destas coisas — é um mapa de stocks, não de fluxos. Diz pouco sobre como correu o ano. Quero lá eu saber qual é o meu stock de discos ouvidos, de livros lidos, ou de séries da Netflix que não vejo. — esse, aliás, continua perigosamente próximo de zero.
O que eu queria mesmo saber era: o ano foi bom ou mau?
Ganhei ou perdi pares de meias?
Tupperwares com tampa?
Paciência para com terceiros que fazem balanços do ano?
Tenho mais ou menos da dita santa do que no ano passado?
É possível que esteja à beira da falência da mesma e ainda não tenha recebido aviso nenhum em casa. Nem um telefonema. Nada! É inacreditável.
Aliás, com o ano novo devíamos receber uma dotação de paciência. A 1 de Janeiro repunha-se o stock. Recebíamos um email como aqueles da Autoridade Tributária:
Dona Alzira, informamos que os seus níveis de paciência serão repostos em breve.
A 1 de Janeiro de 2026 serão creditadas na sua conta 327 unidades de pachorra, valor que já inclui a devida correcção para a deflação generalizada observada em 2025, muito influenciada pelo caso Anjos–Joana Marques.
Eu acho que o que devíamos fazer era uma demonstração dos resultados do ano. Ao menos aí tínhamos medidas de performance como deve ser: KPIs, que é como se diz agora.
Por exemplo: podia-se calcular o rácio entre os livros lidos em 2025 e as horas passadas a fazer scroll no Instagram a ver vídeos de pessoas a fazer pão de massa mãe.
(E eu que pensava que a massa mãe da pandemia já tinha azedado há muito, como a minha.)
Mas não é para acabar o ano assim com azedume.
Desejo a todos um 2026 que exceda largamente as previsões, em bom, pois claro e, sobretudo, muita paciência.
Se também não gostam de fazer balanços a 31 de Dezembro.

Não sei se gosto ou não de fazer balanços mas gosto pelo menos de fazer wraps das leituras do ano (ajuda-me no meu compromisso comigo de continuar a ler e também a perceber o que está a correr bem ou o que falhou porque não quero ler livros de que não gosto e às vezes olhar para o que passou ajuda a perceber o tipo de coisas que coçam aqui a mioleira). Dito isso, confess que sou grande fã de favoritos do ano (de fazer a lista e de cuscar a dos outros - mesmo que seja só uma lista de quantos tupperwares perdidos, quantos almoços na casa da tia Amélia, ou quantas sonecas batidas debaixo da sombra de uma árvore, para mim está tudo a valer!)
Gostas de inventários, portanto. Nada contra. O meu livro preferido de 2025 foi o Desfufador de Valério Romão - mas talvez já me tenha esquecido dos que li no primeiro e segundo trimestre.