O Universo
Da série: cabides - crónicas de uma chata
A ideia de universo não é universal, e isso perturba-me.
Sim, às vezes temos de definir qual é o universo a que nos estamos a referir. “O universo das pessoas que acreditam que o universo se uniu para as tramar”, como na música do Rui Veloso.
Eu incluo-me nesse universo.
“Em qual?”, pergunta a leitora atenta.
No das pessoas que se unem para tramar as outras, pois claro.
Ou porventura achava que sofro de mania da perseguição?
Que seria.
Eu sei que está na moda declarar publicamente o padecimento de toda e qualquer doença mental ou neuro-atipicidade, mas não espere que me assuma maníaca da perseguição.
Calma, eu estava só a brincar.
Eu sou obviamente uma boa pessoa; vinha lá eu para aqui confessar publicamente que conspiro colectivamente para tramar alguém.
Que seria.
“Então mas, se não persegue nem tem a mania que é perseguida, como é que isto se resolve de forma lógica e coerente?”, pergunta agora o leitor atento.
Passo a explicar: a união do universo das pessoas que conspiram para tramar as outras com o universo das pessoas que acham que o universo se uniu para as tramar não corresponde necessariamente ao universo universal. Vulgo, “o mundo inteiro”. Ou, para a leitora que aprecia números, 8.3 mil milhões de pessoas.
E, assim sendo, não tenho que me incluir em nenhum dos dois universos. Incluo-me, pois claro, no complemento desta união: o universo dos que não são nem uma coisa nem outra. Confortavelmente, nem carne nem peixe.
Se juntarmos os três grupos, assumindo que a intersecção dos dois primeiros é um conjunto vazio, aí sim, temos o universo universal.
A menos que o leitor queira incluir outras coisas no universo, que não só pessoas.
Se quiser extraterrestres, cães, gatos, papa-formigas e latas de atum, vai ter de redefinir “universo”. Mas vai ter de o fazer sozinho, que eu agora já não estou para essas macacadas. Fiquei sem bateria social, que também é uma coisa que está na moda dizer-se hoje em dia.
E agora que já ficou com “Já não há estrelas no céu, p’ra dourar o meu caminho...” na cabeça pelas próximas horas, dou isto por concluído: já tramei o leitor.

O texto fez-me recordar o “Sweet Dreams” dos Eurythmics (que faz referência a outra partição incompleta do universo, “Some of them want to use you, Some of them want to get used by you, Some of them want to abuse you, Some of them want to be abused”. https://www.youtube.com/watch?v=qeMFqkcPYcg