Objectos
No fundo, isto é sobre coisas.
São vários os objectos que me acompanham sempre, e vários os que nunca. Ando quase sempre de mochila e carteira para me ajudar nesta permanência dos objectos. A permanência do objecto é uma coisa que se aprende em bebé: que o mundo continua a existir mesmo quando fechamos os olhos. Eu, às vezes, preferia que não. Era bom se fechássemos os olhos e as coisas más do mundo desaparecessem. Puff!
Mas adiante, que isto é sobre objectos na minha carteira e mochila, e uma crónica que se quer leve.
Os objectos mais pequenos, imprescindíveis, imperdíveis e que devem estar mais à mão têm honras de carteira. A carteira é pequena, para que possa encontrar logo tudo o que preciso. Tudo o resto segue na mochila amarela. A minha mochila é amarela para que a encontre com facilidade. Encontrar coisas com facilidade é algo que procuro — descobri agora, ao escrever isto.
A mochila amarela é da mesma marca dos cadernos onde mais gosto de escrever. A marca da mochila começa com M. “Marca” também começa, mas neste caso é mesmo à marca que me refiro, e não a “marca”. É Moleskine. Pronto, já disse. E agora o leitor pode julgar-me à vontade e dizer que sou uma snob dos cadernos. Até porque também tenho uns “Smithson of Bond Street”. Mas, por acaso, desses não gosto tanto.
Mas adiante, que isto é sobre objectos na minha carteira e mochila, e uma crónica que se quer leve.
Na carteira segue então:
A chave de casa. Que, sendo de casa, é provavelmente o objecto mais indispensável de se ter na rua. Esquecer a chave equivale a ficar trancado na rua, o que é uma ideia bastante absurda. Ficar “limitado” ao resto do mundo que não é a nossa casa e dizer que estamos trancados é um bocado palerma.
Dinheiro e cartões. Mas não por muito tempo, porque agora paga-se tudo com o telefone.
Telefone.
Um batom do cieiro cor-de-rosa do Lidl, que tem a melhor relação preço-qualidade de todos os batons, de cieiro ou não. Posso ser snob no caderno, mas no batom não me apanham.
Óculos de sol, “que levo p’ra chorar sem ninguém ver”, já dizia Natércia Barreto, e óculos de ver, que levo para ver, ler e ser vista.
Na mochila:
Uma garrafa de água. Alguém instituiu recentemente que não é aceitável beber água engarrafada. E eu acho bem. Só nos sentimos devidamente ajustados à sociedade de consumo de água se trouxermos a nossa própria garrafa reutilizável — que mais tarde será, com toda a probabilidade, abandonada. Não por intenção, mas por negligência. Talvez o aumento do preço e da sofisticação destas garrafas venha a fazer com que, no futuro, estas deixem de ser vilmente abandonadas, como animais de estimação nas férias ou crianças esquecidas no Natal em filmes da década de 90.
Caderno e livro. Normalmente um de cada, mas não necessariamente. Às vezes andam aos pares. Ou pares de pares. Eu acho que deve ser para sentir a nostalgia dos tempos de escola, em que levava 3kg de papel às costas. Porque para a escola não se levava cá computador.
Computador. 3kg.
(Por vezes, não calha bem levar garrafas de água com livros e eletrónicos, porque acidentes acontecem. Especialmente quando as garrafas são ultra-complexas e, apesar de terem todo o tipo de trancas de segurança para não se abrirem acidentalmente, é preciso um doutoramento em engenharia mecânica para as fechar devidamente.)
Lapis e canetas. Já que falamos em engenharia, de que serve um ou dois cadernos sem canetas? Para fazer origami. Ou então de base para copos. Mas isso estraga a capa do caderno, dirá o leitor atento. Os Moleskine são bastante robustos, digo eu. Mas só se não estiverem já estragados com água, returque o impertinente leitor. Ensopados ou não os cadernos, qual borrego, precisamos de material de escrita a acompanhar. Sempre bem acondicionado num estojo. Canetas de tinta de várias cores, esferográficas e lápis: cada um para a sua ocasião. Eu prefiro as canetas de tinta, mas são péssimas nos aviões — ficam incontinentes, coitadas. A escrita em altitude tem de ser com esferográfica.
E finalmente, na categoria dos objectos ausentes mas comumente presentes em carteiras e mochilas de outras pessoas mais prevenidas do que eu, temos:
Lenços de papel, porque acabam e eu esqueço-me de os substituir. Às vezes até os tenho, mas convenço-me que não, porque me esqueci de os substituir.
Chapéu de chuva. Porque, quando chove, basta-me fechar os olhos que o sol brilha e a chuva só molha parvos.
Photo by Yana Hurska on Unsplash
(Este artigo é um exercício de escrita proposto pela Nenhures que devem seguir, de olhos fechados.)
